Nos últimos anos, o mundo assistiu a uma acelerada transformação nas estruturas de poder e nos fluxos comerciais. O frágil equilíbrio entre nações líderes redefiniu alianças, elevou os riscos geopolíticos e impôs desafios inéditos aos gestores e investidores. Este artigo busca oferecer uma visão panorâmica sobre o panorama global, analisando as principais tendências e apresentando insights práticos para quem deseja compreender e se adaptar a esse novo contexto.
Com conflitos atingindo o maior patamar desde a Segunda Guerra Mundial e um ambiente internacional cada vez mais transacional, entender os movimentos das grandes potências e as oportunidades que emergem em regiões-chave tornou-se essencial. A seguir, exploramos os eixos centrais desse novo cenário.
Rivalidade entre grandes potências e fragmentação da ordem
A rivalidade EUA–China molda mercados e decisões políticas em escala global. Classificada como o componente estrutural nº 1 da geopolítica atual, essa disputa influencia diretamente a estabilidade internacional. Enquanto ambos os países lutam pela liderança em tecnologia, infraestrutura militar e poder econômico, outras potências regionais também intensificam sua presença, contribuindo para uma ordem mais fragmentada.
Dados apontam que existem 59 conflitos militares ativos ao redor do globo, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial. Esse cenário reforça a percepção de um risco geopolítico estruturalmente elevado, com impactos sobre mercados de capitais, cadeias produtivas e preços de insumos.
As principais implicações para investidores e empresas incluem:
- Maior incerteza de longo prazo, elevando prêmios de risco e volatilidade.
- Pressões de custos adicionais, decorrentes de tarifas e distúrbios logísticos.
- Diferenciação entre regiões e setores, criando vencedores e perdedores.
Reconfiguração do comércio global
A conjunção de tensões entre as maiores economias, a guerra na Ucrânia e a emergência de novos blocos políticos provoca uma profunda mudança na geometria das trocas comerciais. Conceitos antes limitados a discussões acadêmicas agora orientam decisões estratégicas de governos e empresas:
- Friendshoring: relocação de cadeias produtivas para países aliados.
- Nearshoring: proximidade geográfica como fator de resiliência.
- Derisking: redução de exposição a parceiros percebidos como arriscados.
- Decoupling: desengajamento profundo entre duas economias.
Para mensurar essa transformação, o McKinsey Global Institute monitorou quatro métricas essenciais:
Entre 2017 e 2024, a distância geopolítica média caiu 7%, indicando que países passaram a privilegiar parceiros políticos mais próximos. No entanto, nações não alinhadas estritamente, como ASEAN, Brasil e Índia, mantêm ou aumentam sua diversificação, atuando como intermediários em cadeias globais fragmentadas.
Estados Unidos: realinhamentos comerciais estratégicos
No cenário americano, observa-se um declínio significativo da participação chinesa no comércio de manufaturados. Entre 2017 e 2024, os EUA reduziram em 6 pontos percentuais as importações vindas da China. Ao mesmo tempo, aumentaram em 2 pontos percentuais as compras do México — que se tornou em 2023 o maior fornecedor de bens para os EUA — e em 4 pontos percentuais as aquisições de países da ASEAN. Esse reposicionamento acelerado em 2024 reforça o movimento de diversificação, mas não anula o fato de que a China ainda representa cerca de 30% do valor agregado manufatureiro mundial, pois muitos produtos incluem insumos chineses mesmo quando exportados por terceiros.
Para empresas e investidores, isso exige mapear toda a cadeia de fornecedores, identificar riscos de concentração e buscar oportunidades em mercados favorecidos pelos fluxos de nearshoring e friendshoring.
China: redirecionamento para economias em desenvolvimento
Confrontada com tensões persistentes com economias avançadas, a China impulsionou seus laços com mercados emergentes, tornando-os o principal destino de suas exportações e origem de suas importações. Entre 2017 e 2024, a participação de parceiros geopoliticamente distantes recuou quase 10 pontos percentuais, enquanto a ASEAN passou a ser o bloco regional mais relevante. Em setores como eletrônica, máquinas e têxteis, a China gradualmente assume o papel de fornecedora de insumos intermediários, fortalecendo cadeias de valor sul–sul.
Essa estratégia reduz a exposição a sanções de países desenvolvidos, mas aumenta a interdependência com aliados que também enfrentam riscos geopolíticos, como a Rússia e algumas nações da América Latina. A oportunidade reside na expansão de hubs industriais em regiões que se beneficiam da integração chinesa.
Europa e energia: o pós-Rússia e a dependência alterada
A invasão da Ucrânia pela Rússia acelerou a repactuação do mercado energético europeu. A participação russa nas importações alemãs de energia despencou de mais de 30% em 2017 para apenas 1% em 2023. Os Estados Unidos emergiram como fornecedor-chave, ultrapassando a Rússia e assumindo posição central no abastecimento de gás e petróleo para a Alemanha.
Em 2024, os EUA também superaram a China como maior parceiro comercial alemão, refletindo o impacto das sanções e da busca por segurança energética. Essa reconfiguração provoca reprecificação estrutural de energia, afetando competitividade industrial, inflação e política monetária no continente. Para mitigar riscos, empresas devem diversificar contratos de fornecimento, investir em fontes renováveis e avaliar parcerias locais para garantir estabilidade de longo prazo.
Como se preparar: recomendações práticas
Diante desse cenário turbulento, algumas ações podem ajudar empresas e investidores a navegar com mais segurança:
- Mapear detalhadamente as cadeias de valor, identificando pontos críticos de exposição.
- Implementar estratégias de diversificação geográfica e de fornecedores.
- Acompanhar indicadores de risco geopolítico e políticas governamentais.
- Estabelecer parcerias locais para agilizar friendshoring e nearshoring.
Referências
- https://www.wellington.com/es-es/inversores-profesionales/perspectivas/geopolitica-en-2025
- https://www.mckinsey.com/locations/south-america/latam/hispanoamerica-en-potencia/la-geopolitica-y-la-geometria-del-comercio-global-actualizacion-2025
- https://www.fundssociety.com/es/noticias/mercados/2025-un-ano-excepcional-para-los-mercados-a-pesar-de-la-incertidumbre-geopolitica/
- https://www.juliusbaer.com/es/insights/market-insights/market-outlook/market-outlook-mid-year-2025/
- https://kpmg.com/es/es/informes-publicaciones/2025/09/principales-riesgos-geopoliticos-2025.html
- https://www.bbvaresearch.com/publicaciones/global-la-geopolitica-llega-para-quedarse/
- https://www.caixabankresearch.com/es/economia-y-mercados/actividad-y-crecimiento/perspectivas-globales-2025-busca-nueva-normalidad
- https://isefi.es/informe-mensual-julio-2025-claves-mercado/







