A Influência da Inflação no Crédito

A Influência da Inflação no Crédito

Entender como a inflação molda o custo e o acesso ao crédito é fundamental para famílias, empresas e investidores. Este artigo explora o cenário brasileiro atual, oferecendo insights e soluções práticas.

Conceitos básicos para contextualizar

Antes de avançar, é preciso dominar alguns conceitos-chave. A partir daí, fica mais simples compreender impactos e estratégias.

  • inflação oficial medida pelo IPCA: indicador calculado pelo IBGE que reflete variações de preços para famílias.
  • regime de metas de inflação: diretriz em que o Banco Central atua com base em metas estabelecidas pelo CMN.
  • crédito com recursos livres e direcionados: modalidades que incluem cartão de crédito, rural, imobiliário, estudantil e BNDES.

Esses fundamentos mostram como o Banco Central usa a taxa de juros (Selic) para ajustar a economia, influenciando diretamente o custo final do empréstimo para consumidores e empresas.

Números recentes de inflação e expectativas

Em agosto de 2025, a inflação em 12 meses atingiu cerca de 5,1%, acima do teto de 4,5% da meta. A aceleração é mais forte entre famílias de menor renda, devido a itens básicos e alimentos.

As projeções para o IPCA em 2025 variam entre 4,43% e 4,46%, próximo ao limite superior. Para 2026 e 2027, há expectativa de queda gradual.

O descolamento de parte das expectativas, com cerca de 58% dos bancos prevendo inflação acima de 4,5%, reforça a incerteza e alimenta a necessidade de juros mais altos.

Selic, combate à inflação e canal do crédito

Atualmente em 15% ao ano, a Selic é uma das mais elevadas entre as grandes economias. O Copom já sinalizou que manterá o aperto caso índices de preços e expectativas não recuem.

Esse aperfeiçoamento da política monetária visa moderar o crescimento da economia, reduzindo o consumo excessivo e a pressão sobre preços. A alta da Selic torna o crédito mais caro, refletindo-se em juros de financiamentos, cheque especial, capital de giro e crédito imobiliário.

Desde abril de 2025, o volume de novos empréstimos tem desacelerado, um claro sinal de que volume de novos empréstimos é afetado pelo aperto. Clientes passam a revisar projetos de investimento e famílias renegociam dívidas em busca de alívio financeiro.

Evolução e perspectivas do crédito no Brasil

Apesar da Selic alta, o crédito bancário cresceu cerca de 11,5% em 2024, impulsionado pela expansão das fintechs e pela emissão de títulos privados, que avançou 30%.

  • Em julho de 2025, o saldo de empréstimos pendentes atingiu R$ 6,7 trilhões.
  • Carteira de crédito para famílias com recursos livres deve crescer perto de 9% em 2025.
  • Empresas com recursos livres projetam alta acima de 7% no mesmo período.

O Relatório de Inflação do BC estima crescimento do crédito total de 9,6% em 2025, bem inferior aos 10,6% de 2024. No crédito direcionado, especialmente imobiliário e rural, espera-se redução na oferta e maior seletividade por parte das instituições.

Inflação, juros altos e inadimplência

Quando o BC eleva a Selic para ancorar expectativas inflacionárias, isso encarece operações de crédito em toda a cadeia — desde o financiamento imobiliário até o uso do cheque especial.

Além do impacto nos consumidores, mais de 60% da dívida pública está indexada à taxa de juros de curto prazo. Juros elevados pressionam o orçamento fiscal, limitando investimentos públicos e ampliando a percepção de risco.

No plano das famílias, há um claro aumento da inadimplência entre famílias. Muitos consumidores recorrem a linhas de crédito consorciadas, empréstimos consignados e renegociações de carnês, o que pode gerar armadilhas de endividamento se não houver planejamento.

Desafios e caminhos para o futuro

O principal desafio é manter as expectativas ancoradas, equilibrar as contas públicas e assegurar que a desaceleração do crédito não comprometa a retomada do crescimento.

Para empresas, é essencial revisar planos de investimento, renegociar prazos e taxa de juros, além de buscar fontes alternativas como debêntures incentivadas e parcerias com fintechs.

Para famílias, recomenda-se:

  • Elaborar orçamento detalhado e priorizar dívidas de maior custo.
  • Negociar condições de pagamento antes de recorrer a novas linhas.
  • Manter uma reserva de emergência para reduzir a dependência de crédito.

Com um cenário de inflação gradualmente em queda e perspectivas de corte da Selic no médio prazo, há espaço para recuperação do crédito. Ainda assim, será preciso combinar políticas fiscais responsáveis, regulação eficaz e educação financeira para garantir um ambiente estável e sustentável.

Referências

Lincoln Marques

Sobre o Autor: Lincoln Marques

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